SERÁ QUE DEU CERTO?

Quando um casal está em tratamento de fertilidade, não há momento mais tenso do que o período entre a transferência dos embriões e o exame de gravidez. São somente 12 dias, mas parece uma eternidade e ainda temos que esperar pelo resultado que pode demorar até 48 horas…
Nós mulheres recebemos uma carga imensa de hormônios que são responsáveis pela produção de folículos e geração de uma maior quantidade de óvulos. Assim que eles são puncionados, ou seja, são retirados dos nossos ovários para que haja a fertilização in vitro com os espermatozóides, recebemos novos hormônios que atuarão no preparo do útero. Após 3 ou 5 dias os embriões de qualidade são escolhidos para a transferência e mais medicamentos são adicionados para auxiliar nosso organismo a entender o processo gestacional e aceitar estes “corpos estranhos” de forma natural.
A progesterona é a principal causadora dos sintomas de gravidez que passamos a sentir, afinal ela é responsável por formar o endométrio e manter a placenta no início da gestação. É comum sentirmos cansaço, sono, fome, náuseas, inchaço e dor nos seios, dores de cabeça e enjôo. Mas infelizmente, estes sintomas típicos de gravidez, nem sempre são certeza de um resultado positivo. Eu fiz 10 fertilizações in vitro e posso garantir que o que sentimos neste período é um sofrimento imenso!
Lembro que nas primeiras tentativas o médico pedia repouso e eu nem me mexia… achava que se fizesse algum movimento brusco ia perder os embriões… depois fui entendendo que na verdade o primeiro dia deve ser de total repouso, nos demais só temos que evitar esforço físico e desgaste emocional, mas dá pra levar o cotidiano numa boa. Difícil eram os sintomas… aquele enjôo pela manhã, náusea ao andar de carro, cada curva parecia que minha cabeça ia explodir. Os seios inchados e doloridos e um sono absurdo o dia todo. Passei por isso em todas as FIVs, depois da quarta, já acostumada, nem me empolgava mais, queria mesmo era fazer o exame de sangue e saber o resultado.422-seraquedeucerto
E o dia do exame… nossa, que adrenalina!! Eu tive a sorte de ser apresentada pelo médico a um laboratório pequeno do lado da clínica que mandava o resultado no mesmo dia. Ia bem cedo colher sangue e depois do almoço não me aguentava… entrava no site do laboratório a cada 5 minutos, mesmo sabendo que normalmente o resultado saía umas 15h. Foram 6 negativos seguidos.
Na sétima FIV eu estava no meio de uma reunião quando meu celular começou a vibrar… eu não podia atender, estava apresentando um projeto! O bichinho alí na cadeira trepidando e eu vendo o nome do médico na telinha. De repente o nome mudou para o do meu marido e eu não me aguentei, pedi licença e fui atender… era o tão esperado positivo, mas a alegria durou somente mais 3 semanas. Tive um aborto natural. Tentamos mais uma vez e outro negativo. Trocamos de médico.
Na nova clínica após a transferência dos embriões, além dos hormônios artificiais eu comecei a tomar injeções de anticoagulante, que adicionavam mais um sintoma, inchaço na barriga e uns carocinhos roxinhos que só desapareceram depois que pegamos prática na aplicação das injeções. Nas duas vezes, que felizmente foram um sucesso e hoje tenho meus 4 filhos, os mesmos enjôos, náuseas, cansaço e sono de sempre, só que desta vez o exame foi em outro laboratório e precisei esperar o resultado 2 dias depois, e pior… véspera de Natal, nas duas vezesl!!
Não é fácil quando se deseja muito alguma coisa lutar com a nossa ansiedade… estar “tecnicamente grávida” é um período horrível!! A gente quer acreditar que deu certo e ao mesmo tempo sabe que pode não ter dado… pra mim sempre foi a fase mais difícil dos tratamentos. Dá vontade de comprar uns 10 kits de farmácia e fazer exame de gravidez todas as manhãs. Queremos começar o enxoval e fazemos planos. Passamos a mão na barriga lisa e conversamos com aqueles embriõezinhos pedindo que eles se desenvolvam. Tiramos aquele tubinho de sangue mandando todas as vibrações mais positivas que podemos imaginar. Pensamos 24 horas por 12 dias: será que deu certo??!!

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FALTA…

Quem é tentante vai entender bem.
Temos o mundo ao nosso redor, pessoas e mais pessoas com as quais conversamos pessoalmente, pelo telefone, email, mensagens, mas falta…
Temos uma companhia, um cônjuge, alguém que deseja tanto quanto a gente, que está do nosso lado, em alguns casos um pouco descrente, em outros casos muito presente, mas falta…
Podemos ter uma família apoiadora, que entende nosso sofrimento, torce, ora, apoia, alivia nossa dor, mas falta…
Amigos tentam nos animar, nos tirar do fundo do poço onde nos escondemos, trazem palavras de conforto, mas falta…
Algumas vezes estamos sozinhas, sem companhia, sem apoio, sem conforto, mas com a falta…
Nos olhamos no espelho, passamos a mão na barriga, imagimamos tantas coisas, choramos, rimos, nos animamos, nos desesperamos, mantemos a fé, mas falta…
E essa falta é tanta que nem percebemos ou nos incomodamos quando algo maravilhoso acontece… pelo contrário, sentimos mais falta…
É um vazio lá dentro, um vácuo que preenche a nossa alma, uma vontade de gritar por socorro 24 horas por dia…
O tempo passa e a falta permanece, forte, destruidora, avassaladora…
Mas a falta é tanta que nos fortalece… queremos tanto que lutamos com todas as nossas forças.
E quando a falta perde a batalha, nos inundamos de presença… queremos estar presentes o tempo todo!
Estamos presentes quando dorme, quando acorda, quando chora, quando sorri, quando fala, quando anda…
E aí, é a gente que quando sai de perto, faz falta…417-falta

VOCÊS NÃO QUEREM TER FILHOS?

Quando um casal ouve esta pergunta, pode responder “Sim, queremos, estamos providenciando” ou “Não, ainda é muito cedo” e até mesmo “Não, optamos por não ter filhos”. Mas quando esta pergunta é para um casal que sofre de infertilidade, a resposta é muito difícil…
Primeiro, porque podem não querer que os outros saibam o que estão passando. Segundo, porque se responderem que sim, a pressão aumenta. E enfim, se responderem que não, estarão mentindo. Vivemos isso e passamos por muitas situações difíceis. Como nos casamos depois dos trinta anos, já ouvimos a pergunta no dia do casamento… claro que naquele momento não imaginávamos o que aconteceria e facilmente respondíamos que sim, só iríamos esperar um pouco e curtir a vida a dois para depois encher a casa de filhos!
411_teraofilhosApós 2 anos de casados, começamos a nos preparar para os filhos. Parei de tomar anticoncepcional, fizemos uma pequena reforma no apartamento e aguardamos o acontecimento. Após 6 meses de tentativas e eu com 34 anos, minha médica pediu alguns exames e tudo parecia normal. Quando completamos 1 ano ela não quis arriscar mais e pediu que procurássemos um especialista.
Claro que acreitamos que rapidamente tudo se resolveria… após a segunda FIV com resultado negativo, entendemos que não era tão simples. Como decidimos não contar a ninguém, cada encontro com família e amigos ficava constrangedor: “E aí, vocês não querem ter filhos?” Um olhava para o outro e discretamente dizíamos que estávamos tentando…
Após mais FIVs negativas decidimos contar sobre nossa infertilidade. Pra gente foi muito difícil pois aumentou a pressão e passamos a conviver com a especulação, palpites, conselhos e comentários, que muito mais nos incomodavam e entristeciam do que nos davam esperanças. Nos afastamos e vivemos nossa dor calados, nos apoiamos um no outro e combinamos que perguntas sobre filhos seriam ignoradas e respondida com um simples “Quando acontecer, acontecerá”.
Na maioria das vezes as pessoas não têm noção do que estamos passando e de forma alguma querem nos ferir, mas pela nossa situação de fragilidade acabamos sendo bombardiados e nos sentindo inúteis diante da situação. Eu mesma sempre tive o impulso de perguntar sobre filhos.
Quando estiver muito incomodada com as perguntas reflita e decida entre o casal a melhor resposta. Para alguns vocês podem simplesmente dizer que estão tentando, para outros serem um pouco mais específicos e contar seu problema e para quem tiver mais intimidade, explicar seus sentimentos de dor e tristeza.
Só quem já viveu o que vivemos compreende a intensidade deste sofrimento, mas sempre há alguém com quem podemos nos abrir e ajudar a aliviar este sentimento.