JÁ VAI NASCER? COMO ASSIM??!!

Quando ficamos grávidas nos preparamos para várias etapas da gestação e lemos muito a respeito. Primeiro vem o resultado positivo, seja pelo exame de farmácia ou por um beta-hcg em laboratório. Depois vem o primeiro ultrassom e aquele frenético “tu tu tu tu” que nos enche de emoção e lágrimas. Passamos então a ter consciência de estar gerando uma vida e cuidamos mais da alimentação, da saúde, reduzimos nosso ritmo, passamos a pensar em coisas que nunca foram importantes.
Chega a hora de montar o enxoval, o quartinho, descobrir se é menino ou menina, fazer chá de revelação, chá de fraldas, chá de bebê. O barrigão vai aparecendo, as roupas ficando justas, sentimos aquela borboletinha no ventre e depois aqueles chutes e cambalhotas! Aprendemos e passamos a explicar a tabela “mês x semana de gravidez”, escolhemos o nome e de repente um susto… seu bebê vai nascer antes do tempo!!
É o tipo de notícia que pega qualquer mamãe desprevenida e que gela a alma. Internação às pressas, parto de emergência, sem malinha, sem roupinha, sem camisolinha, sem nada pronto! De repente você está no centro cirúrgico, cheia de fios te monitorando, vê uma correria de gente, às vezes é parto normal, mas na grande maioria é uma cesárea… e você planejou tanto fazer aquelas aulas, visitar maternidade, preparar a malinha do bebê… um choro rompe a sala.
Muito, mas muito rapidamente te trazem aquela criatura minúscula, ainda avermelhada, enrolada num lençol que te olha com aquele jeitinho de “o que eu tô fazendo aqui?” Pela primeira vez você se sente totalmente entregue ao amor que nasce nesse momento e tudo que você pede é que seu bebê esteja com saúde.
Levam ele embora… você fica na sala para o restante do procedimento. Uma pediatra vem te dizer como está o bebê: “Mãe, ele vai para a UTI Neo para ser avaliado e tomaremos todas as providências para que fique muito bem para que logo possa vê-lo. Parabéns!!” Como, o quê, cadê meu filho, como ele está?? Você vai para a sala de recuperação mas só consegue pensar no bebê. Sobe para o quarto e tem um bercinho vazio… Ainda tonta pelos medicamentos e sem poder fazer muita coisa, só te resta esperar. Se teve parto normal e tudo correu bem, logo está de pé. Se foi cesárea, nem sempre é tão simples, afinal é uma cirurgia, tem os pontos, o efeito da anestesia e acaba sendo uma recuperação mais demorada.
Ok, mas e meu bebê? As enfermeiras vem trazendo notícias, mas a que você quer é “podemos descer para vê-lo”. Para quem nunca entrou em uma UTI Neo, a primeira imagem é aterrorizante. Um corredor cheio de salas, enfermeiros, técnicos, fisoterapeutas, fonoaudiólogos e médicos entrando e saindo o tempo todo. Dentro das salas, várias incubadoras e muitos, muitos equipamentos piscando, apitando, tubos, fios, pedestais… a higiene é rigorosa e temos cabelos presos, mãos lavadas, álcool gel e, algumas vezes, aventais e luvas… Uma enfermeira nos direciona até nosso bebê e é nesse momento que nosso mundo desaba.
Ver aquele ser tão pequeno dentro daquela caixinha, com fios presos nas mãos e nos pés, alguns com tubos de oxigênio, outros com acessos nas veias para medicamentos, sem dizer nos casos mais graves, faz com que nosso coração se acelere e se desespere. A medida que a enfermeira vai passando o estado do bebê, vamos acordando daquela inércia e prestando atenção a cada palavra. Algumas de nós se enchem de uma coragem que não sabíamos que tínhamos, outras ficam fragilizadas e precisam de apoio para suportar o que vem pela frente.
A rotina de uma mãe de UTI é cruel, mas fazemos com tanto amor e dedicação que se torna natural. Desde o primeiro dia temos que fazer ordenha do leite. Máquinas nos ajudam a sugar o leite tão precioso que começa como um pouco de colostro grosso e amarelo e logo passa a ser branco e abundante. A ordenha ocorre de 3 em 3 horas. Não existe mais sábado, domingo, feriado… todo dia é dia de estar cedo no hospital e ficar o maior tempo possível com nosso bebê. Outras mamães de UTI tornam-se nossas melhores companheiras… uma dá suporte a outra, rimos e choramos juntas, comemoramos cada alta e sofremos cada perda…
Receber amigos e família na maternidade após o nascimento fica meio sem graça… ninguém pode ver o bebê. Ter alta e ir pra casa sem ele é muito triste… é vazio… é sem graça! Ir embora todo dia e deixar aquele ser indefeso no hospital é difícil, sempre queremos ficar mais uns minutinhos… Pegar seu filho pela primeira vez no colo, cheio de fios e por alguns minutos é ao mesmo tempo um momento emocionante e desesperador. Poder vê-lo ganhar gramas a cada dia é recompensador. Bom mesmo? Bom mesmo é o dia da alta!!!185- prematuridade
Estive na UTI Neo 2 vezes. A primeira vez com a Lari que ficou 24 dias e a segunda vez com os trigêmeos que ficaram 29 dias. Nada foi igual… com cada um tive momentos diferentes de angústia e alegria. Com a Lari o desespero da anemia que não passava. Com o Alexandre foi a sugada que não acontecia. Com o Lipe eram as apnéias… ele simplesmente parava de respirar. Com a Anna foi tranquilo, eu só torcia pra que ela não tivesse alta antes dos meninos!
Vivi experiências que me marcaram. Acompanhei histórias de mulheres guerreiras que enfrentaram muito mais dificuldades do que eu. Algumas de nós saíram vitoriosas, outras infelizmente, não. Trago no coração cada uma delas e seus bebês… algumas tenho nas redes sociais e acompanho trocando mensagens, curtidas e vendo como esses prematurinhos são fortes! Todas nós chegamos aos nossos limites e nos superamos… todas nós reagimos da mesma forma: “Como assim? Já vai nascer?!”

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